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Entrevista: Bispo Ximenes

Entrevista com o Bispo Alexandre Ximenes, possui 40 anos de ministério pastoral. Pregador consagrado, conferencista, atua hoje como bispo diocesano da Igreja Episcopal Carismática do Brasil, servindo em Recife – Pernambuco, e também no estado de Alagoas. Complementarmente, o bispo é ainda reitor do SETEC, Seminário Teológico da Igreja Episcopal Carismática.


Ximenes avalia os rumos da igreja brasileira e alerta para os riscos da adoção do materialismo pragmático pelas lideranças evangélicas. A justificação dos meios pela praticidade dos fins tem afetado a mensagem e as raízes comunitárias. Ximenes aponta ainda os erros da ditadura dos números e da mercantilização das relações e acredita em um cenário crescentemente favorável para a igreja reformada sacramental e litúrgica.


Carlos Moreira por Genizah - A sociedade pós-moderna, construída sob os pilares da ciência e da tecnologia, tem sido marcada por um fenômeno social conhecido como “a sociedade da conveniência”. Em sua opinião, este fenômeno chegou também à igreja? As pessoas hoje estão vivendo um cristianismo de conveniências?


Bispo Ximenes - Lamentavelmente, a Igreja importou do “sistema” o utilitarismo. A grande maioria das comunidades Cristãs tem vivido um Materialismo sem precedentes, não o dialético, necessariamente, mas um materialismo pragmático. O pior é que, a reboque, tal estilo de vida trás justificação dos meios pela praticidade dos fins. Desde que dê certo, é certo! Hoje, infelizmente, as raízes comunitárias estão sendo desprezadas. As pessoas freqüentam uma congregação por dia, desde que tenham “respostas” ao que procuram. O absoluto que cresce a cada dia é o “sentir-se bem”. Pouco importa o que se ensina ou o que se vive, desde que a pessoa sinta-se bem. Coisas da Pós-Modernidade...


Genizah - Nas últimas décadas, o pós-pentecostalismo (também chamado de néo-pentecostalismo) dominou a “cena” religiosa evangélica em nosso país. Sabemos que o Sr. tem um ministério de mais de 3 décadas como pastor, pregador e conferencista. O que mudou na eclesiologia protestante neste período?


Bispo Ximenes - Sempre observei e preguei que a Igreja corre o sério risco de importar os padrões de governo da sociedade onde está inserida. Os anos 1970, por exemplo, foram ricos no surgimento dos “ditadores” evangélicos. A Igreja repetia no “micro-universo” o que acontecia no “macro”. Tornou-se uma espécie de sistema vigente em escala reduzida, uma miniatura. Claro, houve lindas e benditas exceções! Hoje, refletindo o pragmatismo vigente, a eclesiologia está a cada dia mais voltada para os fins, para o ponto de chegada. Penso que a dimensão Protestante, no sentido real da palavra, está cada dia menor. Não falo do aspecto Protestante relativo à constante repetição dos postulados da Reforma do Século XVI, mas, da capacidade de indignar-se, confrontar, denunciar, enfim, PROTESTAR de forma consciente e baseada em princípios Bíblicos. Hoje, quando se fala em Protestantes, enxerga-se muito mais uma abordagem histórica ou de quase “canonização” dos Reformadores e, muito menos, o enfrentamento do mal, seja ele estrutural ou circunstancial.

A grande maioria das comunidades Cristãs tem vivido um Materialismo sem precedentes, não o dialético, necessariamente, mas um materialismo pragmático. O pior é que, a reboque, tal estilo de vida trás justificação dos meios pela praticidade dos fins. Desde que dê certo, é certo!


Muitos teólogos têm afirmado que as igrejas se tornaram um negócio. Como o Sr. vê toda essa “pirotecnia” (cantores gospel, cultos de catarse, exorcismos, “milagres”) nas celebrações de muitas denominações e isto com vistas a atrair o “crente-cliente” para o seu “curral”?

Se não fosse trágico, seria cômico. A Igreja hoje é um mercado. Com todas as características do mesmo. Impera a Lei da “Oferta e da Procura”. Pregadores cobrando por sermões. O termo “cachê” vem agora sendo usado de forma rotineira. O Evangelho oferecido como produto, coisa, mercadoria. Embora naquilo que chamam com febre altíssima de “doutrina”, não aconteça, na prática, na vivencia do dia a dia, é o que se vê, lamentavelmente. Ouço falar de Igrejas que parcelam dízimo, facilitam no cartão de crédito, reduzem a percentagem do mesmo, enfim, um “venha para cá e tenha mais facilidades”. Crente hoje é cliente! Um jovem me disse a poucos dias que já não existem mais congregações, mas, franquias.


Por que não ouvimos mais mensagens falando da Cruz, do negar-se a si mesmo, da perseverança. Hoje, o que vemos é que a auto-ajuda entrou na igreja disfarçada de doutrina. Com isso, a congregação ouve o que deseja ouvir e não o que precisa ouvir. O que o Sr. tem a comentar?


Creio que é, mais uma vez, a idolatria da estatística. Números divinizados! Jesus de Nazaré seria um fracasso dentro desta ótica. Investiu a vida em um pequeno grupo, não deixou um metro de construção, etc. Diante disto, pergunto: quem quer negar-se a si mesmo? Quem quer um Evangelho de Cruz? Hoje vemos o “evangelho” do “tapete vermelho”, dos “tronos”, etc. O que tem importado a muitos pregadores e líderes é o “IBOPE”. Desculpe-me, mas, Gente assim, deveria ser alvo do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da PM). Algum tempo atrás, um pastor sério me fez a seguinte pergunta: “será que somos bobos?”. Isto posto diante do crescimento deste “evangelho” de dividendos, de conveniências. Eis aí um nome duro, mas que pode ser aplicado em muitos casos: Igreja de Conveniência. Você para, compra, põe no bolso (mente) e vai embora.

É a idolatria da estatística. Números divinizados! Jesus de Nazaré seria um fracasso dentro desta ótica.


Nas últimas décadas temos visto várias práticas empresariais serem utilizadas nas igrejas como, por exemplo, metas a serem alcançadas quanto à multiplicação de fieis engajados em pequenos grupos. O que o Sr. acha deste tipo de prática?


Gosto dos pequenos grupos. Um homem de Deus, há anos, me disse: “quem não está num pequeno grupo não está na Igreja”. Falava dos grupos formados por afinidades, gostos comuns, etc. No entanto, isso não pode ser confundido com um sistema voltado apenas para a multiplicação. Como experiência de comunhão, sim. O Ministério Pastoral tornou-se gerencial, executivo e empresarial. Precisamos com urgência voltar ao Ministério Pessoal, Devocional e Pastoral no sentido exato do termo. Num modus vivendi empresarial, quem irá valorizar, por exemplo, um membro com 90 anos de idade, desamparado, pobre e doente? Ora, ele já não é “produtivo” ou “útil” para o “Sistema Religioso”, tenha ele, o sistema, o rótulo que tiver.


Como bispo de uma diocese da Igreja Episcopal Carismática do Brasil, ramo do protestantismo reformado da Igreja de Jesus Cristo, como o Sr. analisa a percepção da sociedade quanto a uma igreja sacramental e litúrgica nos dias atuais?


Hoje há uma espécie de “ressaca” no mundo cristão. Depois das “experiências” e aventuras, há um desejo de retorno, de volta às origens. E, graças a Deus, esta visão tem se alastrado. A Igreja Episcopal, como qualquer uma em qualquer época, tem suas virtudes e equívocos, mas, ela tem sido inclusiva, acolhedora, misericordiosa e graciosa. Temos sofrido críticas por isso. As pessoas brigam com unhas e dentes pela Teologia da Graça, mas ficam incomodadas quando essa visão é praticada. A IEC tem procurado viver a verdade dos Fundamentos sem abrir mão da leitura do mundo atual. Assim, ela tem uma Liturgia (que não engessa, imobiliza), uma visão Sacramental das Ordenanças (meios de graça), uma consciência dos Carismas e um ardor pela Evangelização, não como catequese ou conquista, mas, como Boa Notícia para um mundo cansado, até mesmo da religião.


Quais são os seus planos ministeriais para os próximos anos? Em que projetos o Sr. está envolvido?


Quero, neste final, dizer que o que foi dito por mim, foi em amor incontrolável pela Igreja do Senhor Jesus Cristo. Há 39 anos que conheço a Igreja. Devo minha vida e ministério à gente boa dessa Igreja verdadeira que ministrou graça sobre mim, me suportou em anos difíceis e, nunca, a exemplo do Senhor Jesus Cristo, desistiu de mim. Portanto, a Igreja Viva está por aí, até mesmo no meio do “sistema religioso” (seja ele qual for). Hoje, quando antevejo o ocaso da vida, rogo a Deus que me faça fiel ao chamado. Jamais abdicarei da esperança. O amanhã, realmente, a Deus pertence. Como também o hoje. Minhas raízes são fundamentadas na vontade do Pai Celestial. Quero estar onde ELE onde quer que eu esteja. Na Igreja Episcopal, a qual amo, desenvolvo hoje o meu Episcopado na Zona Sul do Recife e Estado de Alagoas e sou Reitor do Seminário Teológico Episcopal Carismático, o SETEC. Um dos meus sonhos ministeriais é ter um local apropriado para investir na restauração de pastores feridos nas “batalhas da vida”. Gente querida que foi machucada na caminhada. Ver esses homens restaurados é um dos projetos que ainda espero realizar. Recebo muitos deles em meu Gabinete Pastoral, e, de muitas denominações. Buscam graça, misericórdia e acolhimento. Precisam de um tempo de descanso, reflexão e oração. Espero que um dia, Deus, se assim for a Sua vontade, me propicie este local, uma espécie de “Vale do Perdão”.

Genizah

Ministério pastoral e missão integral

Entrevista com Antonio Carlos Barro

A Teologia Evangelical, ou seja, Missão integral, a partir de seu lema "O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens", definido no Congresso Internacional de Evangelização, realizado em 1974, em Lausanne, na Suíça, oferece uma lente através da qual lemos as Escrituras Sagradas em busca de referenciais para a presença do cristão e da comunidade cristã no mundo.

Mas poucos são os pastores, líderes e faculdades evangélicas que optam por estudá-la e praticá-la em suas vidas, denominações e programas de ensino. E muitos confundem a missão integral com o assistencialismo aos mais pobres.

Crendo que a Missão Integral é algo fundamental para exemplificar e demonstrar a presença cristã que gera transformação das dimensões morais, intelectuais, econômicas, culturais e políticas da comunidade onde está inserida, é que entrevistamos o Dr. Antonio Carlos Barro.

Barro é doutor em Estudos Interculturais pelo Fuller Theological Seminary (California/EUA), professor de disciplinas na área de Teologia Prática, fundador da Faculdade Teológica Sul Americana e atual Chanceler, pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil e responsável pelo site www.sermao.com.br

O que é ter um ministério pastoral com missão integral?

Antonio Carlos - Primeiro devo dizer que essa é uma tarefa um pouco complicada. Complicada porque poucos pastores sabem o que é missão e bem poucos sabem o que é missão integral. Já tivemos casos (mais de um) de pastores que são formados em seminários tradicionais no Brasil que vêm estudar em um dos cursos da Faculdade Teológica Sul Americana e sem ter idéia do que estamos falando quando o termo Missão Integral é usado. Se os pastores não sabem o que é Missão Integral como eles vão desenvolver seus ministérios debaixo deste guarda-chuva?

Mas, respondendo à pergunta de maneira bem simples eu diria que ter um ministério com a missão integral é olhar para o ser humano com um olhar cheio de amor e de bondade e ministrar a esse ser humano de tal forma que ele encontre sua identidade na casa de Deus e recupere a sua dignidade na forma da nova criação. Todas as partes que juntas formam o ser humano são alvos do ministério pastoral.

Muitos confundem a Missão Integral com o assistencialismo aos pobres, qual a diferença? Como as Igrejas podem colocar a missão integral em prática?

Antonio Carlos - Essa confusão se dá em decorrência do que já afirmei na primeira pergunta. Os evangélicos sempre foram preocupados com a alma das pessoas. Queriam salvar almas para o céu. Nossas pregações, nossos hinos e a nossa práxis eram nessa direção. Até que um dia descobriram que a igreja precisa fazer algo mais e esse algo mais era em direção aos pobres. Alguém chamou isso de Missão Integral (MI). A partir desse momento criou-se a lenda de que MI é fazer algo para os pobres e marginalizados da sociedade.

Isso não é e nunca será MI.

Missão Integral como o próprio nome afirma é integral. Para ser integral é preciso ter as partes. A soma de todos os ministérios ou de tudo o que a igreja faz é a MI. Integral é o valor limite da soma daquilo que a igreja é. Num certo sentido nem precisa do nome Integral. Missão já é essa soma. Assim sendo, uma igreja pode ter um ministério com os pobres numa favela e estar longe da MI, bem como um igreja que trabalha com casais ou uma igreja que evangeliza ricos na Av. Paulista.

Eu não conheço nenhuma igreja que desenvolve a MI na sua plenitude. Essa igreja ainda não foi fundada.

A ação missiológica e pastoral da igreja afeta a pessoa humana em todas as suas dimensões: biológica, psicológica, espiritual e social - a pessoa inteira em seu contexto. Como recuperar a visão bíblica da unidade do ser humano nestas dimensões inseparáveis sem cair numa teologia triunfalista?

Antonio Carlos - A única maneira de recuperar isso é reciclar os pastores e líderes assim como todo o povo de Deus. A pergunta que precisa ser feita é se essas pessoas querem aprender a respeito dessa visão ministerial que engloba todo o ser humano. Minha impressão é que a igreja não quer aprender, porque isso é custoso, envolve quebra de paradigmas e um retorno a um cristianismo mais simples que atuaria como contracultura de quase tudo o que está acontecendo em nossas comunidades.

Rene Padilla, um dos grandes precursores da Missão Integral certa vez declarou: "O grande perigo para a sociedade e para a missão integral da igreja hoje, não é o comunismo, mas é o capitalismo." Você concorda com esta afirmação?

Antonio Carlos - Bem, eu não sei o que estava na cabeça do Padilla e em qual contexto ele fez essa declaração. A meu ver não existe nenhum sistema que ajuda ou atrapalha a MI. Ela é desenvolvida independentemente do sistema vigente porque ela é maior do que qualquer cultura e por isso, transforma a cultura. Se o governo é comunista, capitalista ou monárquico isso não tem a menor importância.

Agora existe um fato que é mais preocupante e que foi apontado por Herbert Butterfield, historiador Inglês nos anos cinquenta: a igreja sempre foi como um camaleão. Se o governo é republicano, ela é republicana; se o governo é monárquico, ela é monárquica. Ou seja, a igreja é conivente com o sistema. Tem alguns que não serão. Esses são os remanescentes fiéis e os que não dobram os joelhos para Baal.

Em sua opinião o que dará mais certo: uma igreja com programas e projetos de evangelização e discipulado ou uma igreja que treina seus membros para obedecerem a Cristo nas suas diferentes áreas da vida cívica?

Antonio Carlos - Uma coisa não elimina a outra. Ou uma coisa deveria incluir a outra. Os programas de discipulados na maioria das igrejas não passam de um tempo em que o aprendiz irá ouvir (não digo aprender) algumas fórmulas da nossa sagrada tradição evangélica. Irá ouvir que somos isso e não aquilo, que fazemos isso e não aquilo. O ensino é meramente formal, enche a cabeça de alguns conceitos que não podem ser usados para nada na vida prática.

A igreja deveria educar seus membros para que sejam pessoas libertas do pecado, do medo e da apatia. A maioria dos crentes é apática. O crente aprende desde cedo numa igreja evangélica que a sua função é frequentar um culto e dar o dízimo. Ninguém o desafia a ser uma agente de transformação na sociedade. Portanto, o que chamamos de discipulado pode ser chamado de qualquer coisa.

Quais as dificuldades da Igreja de hoje para vivenciar a missão integral?

Antonio Carlos - Acho que já respondi nas perguntas anteriores.Mas a maior dificuldade é a falta de entendimento a respeito de dois termos básicos: missão e missões. Quando eu vou a uma conferência missionária, eu participo de um evento que tem um foco: falar de missões. Isso inclui orar, ir, contribuir, conhecer, etc. Tudo ali gira em torno de missões, seja mono cultural ou transcultural.

Agora quando eu vou pregar sobre missão da igreja, os crentes e os pastores pensam que eu estou falando sobre missões. Aí eles fecham o filtro porque ninguém está muito interessado em missões. Eu não posso ser pastor ou líder se eu não entendo o que é missão, se eu não entendo que a missão é a razão de ser da igreja, que a natureza da igreja é missionária. Falta mais reflexão aos nossos líderes, eles deveriam pensar mais nisso.

Quais os seus conselhos aos líderes e pastores para repassar a visão da missão integral para sua igreja?

Antonio Carlos - Ver, julgar e agir.

Ver o que está à sua volta, ensinar sua igreja a ler a Bíblia e o mundo ao mesmo tempo e levar sua igreja a responder às necessidades que estão perto dela. Pelo menos isso. Não se preocupe em querer salvar o mundo. Salve o seu bairro, salve sua cidade.Agir em nome de Deus e com os recursos disponíveis. Fazer o que pode e o que não pode, ore a Deus. Ele é o Senhor dos recursos.Depois avalie o que foi feito, arrume o que pode ser arrumado.

Finalmente, convoque a comunidade e celebre os frutos da missão. Depois de celebrar (alguns podem chamar isso de culto) saia para o mundo em missão. Retorne para celebrar e volte ao mundo para missionar. Só isso.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site http://www.institutojetro.com/ e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

Entrevista: Roberto Shinyashiki

A revista ISTO É publicou esta entrevista de Camilo Vannuchi. O entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional.

Em 'Heróis de Verdade', o escritor combate a supervalorização das aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.

ISTO É - Quem são os heróis de verdade?

Roberto Shinyashiki
-- Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe.
O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegarão a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados.
Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu à pena, porque não conseguiu ter o carro, nem a casa maravilhosa.
Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa, possa se orgulhar da mãe.
O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes.
Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros.
São pessoas que sabem pedir desculpas e admitiram que erraram.

ISTO É -O Sr. citaria exemplos?

Shinyashiki -- Dona Zilda Arns, que não vai a determinados programas de tevê nem aparece de Cartier, mas está salvando milhões de pessoas. Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia.
Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis.
Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem.
Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito '100% Jardim Irene'.
É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes.
O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana.
Em países como o Japão, a Suécia e a Noruega, há mais suicídio do que homicídio.
Por que tanta gente se mata?
Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher, que embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego, que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTO É -- Qual o resultado disso?

Shinyashiki
-- Paranóia e depressão cada vez mais precoce.
O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece.
A única coisa que prepara uma criança para o futuro, é ela poder ser criança.
Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas.
Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTO É - Por quê?

Shinyashiki
-- O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento.
É contratado o sujeito com mais marketing pessoal.
As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência.
Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras.
Disse que ela não parecia demonstrar interesse.
Ela me respondeu estar muito interessada, mas como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas.
Contratei-a na hora.
Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTO É - Há um script estabelecido?

Shinyashiki -- Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente de multinacional no programa 'O Aprendiz'?
- Qual é seu defeito?
Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal:
- Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar.
É exatamente o que o Chefe quer escutar.
Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido?
É contratado quem é bom em conversar, em fingir.
Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.
O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse:
'Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir'.
Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor!

ISTO É - Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?

Shinyashiki
-Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento.
Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência.
Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira.
Não adianta você assumir uma função, para a qual não está preparado.
Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão.
Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso, para o qual eu não estava preparado.
Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia.
O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTO É - Está sobrando auto-estima?

Shinyashiki
- Falta às pessoas a verdadeira auto-estima.
Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa.
Antes, o ter conseguia substituir o ser.
O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom.
Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser, nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer.
As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam.
E poucos são humildes para confessar que não sabem.
Há muitas mulheres solitárias no Brasil, que preferem dizer que é melhor assim.
Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTO É -Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?

Shinyashiki
-Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis.
Quem vai salvar o Brasil? O Lula.
Quem vai salvar o time? O técnico.
Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta.
O problema é que eles não vão salvar nada!
Tive um professor de filosofia que dizia:
'Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham'. Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo.
A gente tem de parar de procurar super-heróis, porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTO É - O conceito muda quando a expectativa não se comprova?

Shinyashiki
- Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado.
A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza.
Não há nada de errado nisso.
Hoje, as pessoas estão questionando o Lula, em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram.
A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTO É - Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?

Shinyashiki
-Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente.
Há várias coisas que eu queria e não consegui.
Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos.
Com uma criança especial, eu aprendi que, ou eu a amo do jeito que ela é, ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse.
Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo.
O resto foram apostas e erros.
Dia desses apostei na edição de um livro, que não deu certo.
Um amigão me perguntou:
'Quem decidiu publicar esse livro?'
Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.

ISTO É - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?

Shinyashiki
- O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las.
São três fraquezas: a primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança.
Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram.
Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno.
Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards.
Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates.
O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTO É
- Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?

Shinyashiki
- A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade...
A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se eles não tivessem significados individuais.

A segunda loucura é: Você tem de estar feliz todos os dias.
A terceira é: Você tem que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo.
Por fim, a quarta loucura: Você tem de fazer as coisas do jeito certo.
Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas.
As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade.
Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito.
Tem gente que diz que não será feliz, enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.
Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo à praia ou ao cinema..
Quando era recém-formado em São Paulo , trabalhei em um hospital de pacientes terminais.
Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.
Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte.
A maior parte pega o médico pela camisa e diz:
'Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei à vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz'.
Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas.
Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades de ser feliz.

Entrevista: Dr. Russel Shedd

Aos 80 anos de vida, o doutor Russell Shedd mantém-se como referência
de integridade, conhecimento bíblico e vida cristã


Não é muito comum um líder religioso chegar aos 80 anos em plena atividade. Mais raro ainda é ter atravessado todo este tempo mantendo um ministério de visibilidade internacional. Agora, privilégio mesmo é poder ostentar uma reputação inabalada e manter-se como referência de conhecimento bíblico e saber teológico em idade tão avançada. Pois Russell Philip Shedd entrou para o rol dos octogenários em 10 de novembro passado com todas essas características. Missionário de origem americana, ele está radicado no Brasil desde 1962. Neste quase meio século, tem prestado decisiva colaboração à Igreja nacional, seja através de seus livros e trabalhos de cunho teológico, seja com suas pregações, conferências e palestras.



Shedd é um teólogo com grande preparo. Com apenas 20 anos, graduou-se no Wheaton College, nos Estados Unidos. Ali, especializou-se em hebraico e grego – línguas bíblicas cujo conhecimento considera fundamental para uma correta interpretação das Escrituras. Em seguida, tornou-se mestre em teologia e, mais tarde, doutor em filosofia e Novo Testamento pela Universidade de Edimburgo, na Escócia. Mas o saber não fez dele um acadêmico arrogante, desses que enxergam a divindade com a frieza dos livros. “O conhecimento não enfraquece a fé; pelo contrário, auxilia o nosso relacionamento com Deus”, afirma. “E ainda produz muita dependência dele também”. Para manter a comunhão com Deus, a receita desse veterano da fé é simples: “Acordo todo dia antes das cinco da manhã. Assim, é possível dedicar uma hora ou mais à leitura bíblica e à oração.”
Com vinte livros publicados, Russell Shedd é muito conhecido no Brasil como fundador de Edições Vida Nova, casa publicadora especializada em obras teológicas pela qual lançou a Bíblia Vida Nova em 1977, abrindo o mercado para a popularização das versões de estudo das Escrituras Sagradas. Foi também professor na Faculdade Teológica Batista de São Paulo durante 30 anos e pastor da Metropolitan Chapel, congregação fundada por ele na capital paulista, onde vive e permanece ligado à denominação Batista. Missionário jubilado, Shedd tem um padrão de vida simples, razão pela qual não aceita que o líder evangélico ostente riquezas. “Não creio que o ensinamento do Novo Testamento favoreça em algum momento o ato de esbanjar ou gastar somas grandes para provar que Deus nos tem abençoado”, comenta. O “senhor Bíblia” – como muitos o chamam, à sua própria revelia – concedeu esta entrevista a CRISTIANISMO HOJE:


CRISTIANISMO HOJE – O senhor tem um dos mais invejáveis currículos de formação teológica entre os líderes cristãos que atuam no Brasil. É difícil conciliar tanto conhecimento com a simplicidade de um relacionamento com Deus?
RUSSELL SHEDD – Não, não acho difícil. O conhecimento não enfraquece a fé; pelo contrário, auxilia o relacionamento com Deus. E produz muita dependência dele também.


De modo geral, como é o nível do conhecimento do crente brasileiro acerca de Deus e de sua Palavra?
Creio que um problema em diversas igrejas é a falta de ensinamento que explique mais detalhadamente a Bíblia toda. Por exemplo: quantos creem num inferno eterno? E muitos crentes têm uma aversão contra a soberania de Deus, tal como a Palavra ensina.
Em 1962, quando o senhor chegou ao país, o panorama religioso nacional era completamente diferente do de hoje. Faça um paralelo entre a situação espiritual que encontrou naquela época e o que se vê atualmente.
Uma das principais diferenças foi que, naquele início dos anos 1960, as igrejas tradicionais condenavam interpretações e práticas pentecostais, como dons de línguas, profecia e curas miraculosas. Tais manifestações eram consideradas quase como heréticas. Hoje, as igrejas mais tradicionais tendem a condenar a teologia da prosperidade e os ensinamentos dos neopentecostais por falta de base bíblica. Os seminários proliferam, embora o ensino bíblico, em muitos casos, seja bastante superficial. E o interesse em missões continua sendo muito precário.

Então, apesar da haver mais seminários, o panorama do ensino teológico no Brasil não é bom?
Muitas igrejas montaram suas próprias escolas teológicas. Claramente, hoje temos muitas escolas sem professores treinados. O liberalismo teológico tem sido tirado de algumas escolas, enquanto em outras continua sendo uma opção que os alunos não têm habilidade para julgar ou avaliar. A leitura de autores como Tillich e Bultmann pode dar a ideia de que não há muita diferença entre o liberalismo e ortodoxia. Um bom número de autores teológicos modernistas está aí, no mercado editorial. Ao mesmo tempo, há um crescente número de excelentes opções de autores que abraçam firmemente a inspiração plenária das Escrituras e a ortodoxia tradicional.

O reconhecimento dos cursos teológicos evangélicos pelo Ministério da Educação [tema tratado em reportagem nesta edição] pode ser uma solução?
Não acho que esse reconhecimento seja positivo, uma vez que os professores precisam adquirir graus de mestrado e doutorado, muitas vezes orientados por professores liberais. E a vantagem de fazer um curso reconhecido se perde na medida em que os pastores se tornam mais, digamos, profissionais.

Como um ex-editor, o que o senhor acha do segmento editorial evangélico hoje? A realidade do mercado sufoca a vocação ministerial?
Não há dúvida de que, se não existir um mercado editorial, as editoras não podem sobreviver. Claro, elas também têm de ter um caráter de missão, para poder escolher títulos que o povo precisa ler. É óbvio que há muitos títulos no mercado que acho de pouca importância, mas isso não quer dizer que não haja muitos leitores que buscam informação e encorajamento nesses livros. Existe também uma outra questão. Algumas editoras evangélicas têm receio de publicar livros liberais, que poderiam destruir a fé dos leitores. Mas aquelas que publicam tais livros têm interesse no mercado e no aparecimento de outros autores “famosos”, mesmo que não sejam crentes evangélicos.

A popularização das Bíblias de estudo temáticas – como Bíblia da mulher, Bíblia das profecias, Bíblia dos pequeninos, Bíblia do executivo – tem beneficiado as editoras, que investem cada vez mais em novos lançamentos do gênero. Essa corrida pelo mercado é boa ou ruim?
Não acho ruim, uma vez que qualquer ajuda que o leitor recebe dessas bíblias somente poderia trazer benefícios. Não seria o caso se as notas fossem tendenciosas, oferecendo interpretações falsas.

Na diversidade de versões e edições que hoje existem da Bíblia, qual deve ser o parâmetro de escolha do crente em termos de fidedignidade?
O que importa é que a tradução escolhida não acrescente alguma ideia que o autor do original não tinha. Fidelidade na tradução sempre tem que reproduzir a ideia do original. Ela não pode incluir nem excluir algo que o texto hebraico ou grego diga.

O senhor é o presidente emérito de Edições Vida Nova, casa publicadora que ao longo dos anos tornou-se referência em obras de cunho teológico, e consultor da Shedd Publicações. Num mercado dominado por livros de cunho motivacional, a literatura teológica ainda encontra espaço?
Graças a Deus, sim. As vendas de livros publicados pelas Edições Vida Nova, bem como de Shedd Publicações, têm aumentado ano a ano, juntamente como o crescimento do público evangélico.

O que deve ser feito pelas editoras para que as obras de conhecimento teológico não sejam apenas livros de referência para professores e estudiosos, mas também tenham apelo para o crente comum, o membro de igreja?
Os editores estão de olho naquilo que vende. Eles sempre seguirão o que a pesquisa de mercado indica que será um sucesso. Mas para aproximar as obras teológicas dos leitores comuns será evidentemente necessário tornar esses livros mais populares. Por exemplo, os manuais bíblicos. Hoje existem manuais de todos os níveis.

Em seus livros O líder que Deus usa e A oração e o preparo de líderes cristãos, o senhor enfatiza a necessidade do caráter e do exemplo que o pastor deve dar às suas ovelhas. Qual sua impressão sobre a integridade pastoral hoje?
Infelizmente, temos ouvido sobre casos tristes de quedas de líderes no adultério, no nepotismo e na corrupção. Os pecados que destroem o ministério do líder muitas vezes são esquecidos pelas igrejas, que acham que o pastor é um homem de Deus e não deve ser demitido por um “tropeço”, especialmente se for um líder muito popular. A verdade é que sempre tivemos quedas de líderes durante a história, mas parece que a integridade deles hoje sofre desgaste maior.

Como evitar a excessiva vinculação da congregação a seu dirigente, de modo que a eventual queda do líder não represente um golpe inevitável na comunidade?
A queda de líderes muito proeminentes, isolados e sem o acompanhamento de bons auxiliares, torna-se um desastre para a igreja. Quando presbíteros e diáconos – ou seja, o segundo escalão na liderança da igreja – são muito responsáveis, acompanhando de perto o ministério do dirigente da congregação, é possível, em muitos casos, amenizar os efeitos de uma eventual queda.

Uma das expressões dessa concentração de poder nas mãos dos líderes é o uso de título eclesiais, como o de bispo ou apóstolo. Biblicamente, qual é a legitimação disso?
O ensinamento de nosso Senhor sobre a necessidade de humildade e disposição de servir deve nos advertir sobre o perigo de procurar alguma autoridade que deve ser unicamente de Cristo. Não acho positiva a adoção de títulos que não sejam bíblicos. Bispo é um título bíblico, mas significa apenas “supervisor” e não alguém que domina a vida de outros líderes e pastores. Aliás, o único texto que menciona pastor humano no Novo Testamento é o de Efésios 4.11, onde o grego dá a entender que o pastor deve ser um mestre.
Já a nomenclatura apóstolo, a não ser em raros casos, refere-se às pessoas que Jesus apontou pessoalmente – razão pela qual Paulo argumenta, na sua primeira Epístola aos Coríntios, que viu o Senhor ressurreto e que Cristo apareceu para ele em último lugar. Já Filipenses 2.25 registra o termo “apóstolo” no original, fazendo referência a Epafrodito, que foi autorizado especificamente para levar os donativos da igreja de Filipos a Paulo. Logo, ele foi apóstolo da igreja de Filipos, tal como Barnabé e o próprio Saulo o foram da igreja de Antioquia.

Muitos dirigentes denominacionais justificam a própria opulência argumentando que a prosperidade financeira do líder é sinal da bênção de Deus. Isso tem base bíblica?
Não creio que o ensinamento do Novo Testamento favoreça em algum momento o ato de esbanjar ou gastar somas grandes para provar que Deus nos tem abençoado. Jesus mandou o jovem rico vender o que ele tinha para dar o produto aos pobres. Fica evidente que o Senhor é completamente contrário a que os líderes gastem dinheiro em luxo ou desnecessariamente.

O que faz um líder cair e ficar pelo caminho, transformando seu ministério em motivo de escândalo?
Creio que a falta de cuidado em buscar uma intimidade com Deus todos os dias, evitando a aparência do mal. Acredito que quedas ocorrem quando não achamos possível cair, ou quando ficamos seguros e até orgulhosos de nossa espiritualidade.

Quais têm sido as suas fontes de sustento ao longo desses anos todos?
Nós chegamos de Portugal em 1962, sustentados pela Missão Batista Conservadora. Ao longo desse tempo, igrejas e crentes da América do Norte enviaram suas ofertas missionárias para manter nossa família [Shedd é casado com Patricia e tem cinco filhos]. Hoje, esta entidade chama-se World Venture e continua sustentando missionários em muitos paises do mundo. O nível de sustento é determinado pela missão de acordo com o custo de vida do país no qual o missionário vive. Desde janeiro de 2008, nossos recursos vêm do plano previdenciário Social Security e de uma aposentadoria fornecida pela própria missão. Não temos sofrido nenhuma falta.

Em sua opinião, por que entidades associativas de pastores e líderes, como a Associação Evangélica Brasileira (AEVB), enfrentam problemas de continuidade? Falta interesse dos pastores em participar desses movimentos associativos?
Vários motivos explicam a falta de interesse em entidades associativas. Poucos acham importante, ou de grande benefício, esse tipo de associação. A maioria dos pastores estão tão ocupados com seus programas, planos e ministérios que não acham que vale a pena contribuir e trabalhar para alguma entidade além da própria denominação.

Em quê o conhecimento das línguas bíblicas originais pode ajudar na prática da pregação?
A importância de estudo das línguas originais reside no fato de que através dele se pode explicar melhor o significado que certos termos e frases tinham quando o autor escreveu o texto bíblico. A diferença entre as culturas bíblicas e a cultura ocidental em que vivemos hoje requer bastante cuidado para se entender a visão de mundo e os valores que regeram os escritos bíblicos. Além disso, as línguas originais ajudam chegar a conclusões mais seguras acerca do que dizem as Escrituras. Trabalhar com o texto original leva o pastor a pregar com mais cuidado e a poder afirmar: “Assim diz o Senhor”. Bons comentários também ajudam na tarefa de buscar o sentido do texto.

Essa falta de conhecimento é o motivo de tantas pregações superficiais?
Não é apenas isso. Imagino que os pastores e professores de Escola Bíblica Dominical não têm tempo ou muito interesse em examinar as Escrituras para saber de fato o que o autor queria comunicar. Preferem usar uma hermenêutica que recorre a alegorias sobre o texto bíblico. Assim, é possível dar uma interpretação muito diferente daquela que a Bíblia ensina.

Qual o tempo adequado para o preparo de uma mensagem consistente?
Varia muito. Alguns pregadores podem chegar à proposição, ou seja, ao ensinamento central do texto, com mais facilidade do que outros. Daí, procurar os argumentos dentro do texto que sustentem a proposição demora também. O professor Karl Lachler, que lecionou muitos anos na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, dizia que uma hora de estudo por cada minuto de mensagem parece exagerado… Porém, aquele que estuda e medita para chegar ao cerne da mensagem do texto, além de buscar os argumentos dentro do trecho escolhido que comprovem essa proposição, pode gastar bastante tempo. Infelizmente, cuidado no preparo de mensagens que alimentem o rebanho e a realização de visitas para conhecer bem as vidas dos membros e confrontar aqueles que não estão obedecendo às ordens do Senhor têm sido práticas esquecidas em muitas igrejas. Pastores santos, crentes firmes na veracidade da Bíblia, com famílias ajustadas, que buscam ao Senhor com muita oração e fé, produzem igrejas de qualidade.

A Igreja contemporânea está sempre buscando novas formas de crescer, e muitas congregações recorrem a modelos empresarias de gestão e marketing. O que o senhor pensa de incorporação de tais elementos à obra de Deus?
Não tenho nada contra o crescimento das igrejas, desde que ele não ocorra em detrimento da qualidade da formação dos membros na imagem de Cristo, conforme preconiza o texto de Romanos 8.29. Sou muito a favor do crescimento do número dos genuinamente convertidos e nascidos de novo. O problema surge quando, no interesse de aumentar o tamanho da igreja, deixa-se de lado a santificação dos membros. Ora, sem a santificação, conforme Hebreus 12.14, ninguém verá o Senhor! Ocorre que modelos de gestão eclesiástica não têm tido muito sucesso no discipulado e na formação de homens e mulheres de Deus. Uma igreja muito grande pode ter dificuldades em integrar os fiéis num plano de crescimento espiritual verdadeiro. Com o aumento do número dos membros, é muito fácil perder os indivíduos de vista. Além disso, numa igreja grande os crentes muitas vezes não se sentem responsáveis para servir, contribuir, discipular ou alcançar novos convertidos, especialmente se houver na comunidade líderes pagos para cumprir esse papel. Por outro lado, uma igreja grande tem recursos pessoais e financeiros para se comprometer com grandes projetos e muitos ministérios.

Então, qual deve ser o objetivo de uma igreja?
O alvo bíblico descrito em Colossenses 1.28 – proclamação, advertência, ensino com toda sabedoria e entendimento espirituais – é o objetivo que todo pastor e igreja devem considerar como prioridade.

Na sua opinião, a mídia eletrônica é um bom púlpito?
A televisão pode, sim, ser um bom canal para se explicar o Evangelho. Mas ela tem sérias deficiências também: as pessoas não são discipuladas se não se tornam membros ativos da família de Deus. Um compromisso muito sério com uma igreja local que ensine a Palavra de Deus com autoridade é o caminho do discipulado e do crescimento espiritual.
De alto de sua experiência, o que o deixa preocupado em relação ao futuro da Igreja brasileira?

A minha preocupação se concentra na qualidade espiritual da liderança e dos membros das igrejas. É assustador ver a quantidade de divórcios que ocorrem hoje entre casais evangélicos e a falta de integridade por parte dos líderes. Também fico muito preocupado com a proliferação de ensinamentos que não são bíblicos, como a teologia da prosperidade, que nega a necessidade de o crente negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir a Jesus.

Qual a sua compreensão acerca do que seja um avivamento?
O avivamento tem algumas evidências. Uma delas é quando o Senhor e sua Palavra têm mais importância do que o dinheiro ou qualquer outra coisa material. Avivamento cria arrependimento profundo pelos pecados cometidos e muita alegria no Senhor ao reconhecer seu perdão. Para uma Igreja avivada, o evangelismo se torna algo natural e as missões transculturais, uma prioridade, uma vez que Jesus mandou seus servos fazerem discípulos de todas as nações.

Logo, ao contrário do que se diz, a Igreja brasileira hoje não experimenta um avivamento?
Não acredito que o que acontece hoje, com o rápido crescimento da Igreja, seja um avivamento de verdade. O que eu vejo é que falta temor do Senhor, arrependimento profundo e interesse por missões.

O senhor é filho de missionários americanos que aqui chegaram na primeira metade do século passado, época em que obreiros estrangeiros tinham grande influência no Brasil. Hoje em dia, sendo o país uma potência evangélica, ainda há espaço para eles?
De fato, a influência de missionários estrangeiros aqui é cada vez menor. Mas ainda há áreas em que obreiros vindos de fora poderiam ser úteis, como no preparo para as missões transculturais. O treinamento em determinadas áreas, como antropologia, linguística e informação acerca de povos não alcançados continua sendo uma área em que os missionários estrangeiros podem ser muito úteis à Igreja brasileira.

Pode-se dizer que já existe uma teologia genuinamente nacional?
Creio que teologia nacional, brasileira, seria aquela alicerçada em nossa história e cultura. Não acho que poderia encontrar uma visão como essa bem divulgada no Brasil. Ainda há muita dependência dos livros estrangeiros e de modelos de igrejas que tendem a copiar o que se faz em outros países.

Do que o senhor sente falta na Igreja de hoje e que já viu em outros tempos?
De um lado, mais ensino da Palavra, mais preocupação com santificação e mais investimento em missões transculturais. De outro, uma Escola Dominical mais forte, uma hinologia alicerçada na teologia bíblica e mais livros de ensino sério.

Por Carlos Fernandes

"Feridos em Nome de Deus"


Entrevista do Portal Lagoinha.com
“Só existe um Pastor que nunca falha”


Em tom de alerta, mas também de alento aos ressentidos, Marília de Camargo fala da repercussão de sua dramática obra, “Feridos Em Nome de Deus”

Não fosse pelo fato de ela não ter sido ferida por um pastor ou uma liderança, como ela mesma afirma, bem que o título da presente reportagem poderia ser : “Ela fez da sua dor a sua bandeira”. Mas ainda que não seja esse o caso, foi a partir de sua própria experiência de ter ouvido os relatos comoventes e dramáticos de gente que diz ter sido vitima de abuso de toda sorte por parte da liderança, de seu pastor, que Marília de Camargo César se lançou na escrita de sua polêmica, mas real, obra Feridos Em Nome de Deus (Editora Mundo Cristão, 2009). Detalhe: essa gente que a procurou era da mesma igreja que ela. Ou seja, ela viu de perto essa comunidade cristã vir à baixo no mais amplo sentido da palavra quando, por motivo de saúde, o pastor se vira obrigado a se afastar da liderança. Tempo suficiente para que pipocassem denúncias de suposto abuso de poder. Ela diz no prefácio de sua obra: “Seria melhor se um livro como esse nunca precisasse ser escrito. Ele carrega em suas linhas uma boa dose de dor e desamparo, sentimento que tive de acolher, digerir e esperar que me ensinassem suas lições até poder traduzi-los para essas páginas e contar adequadamente as histórias que se seguem”.

Ainda que o tema não seja novo, o sucesso e a aceitação do livro estão no fato de o mesmo ter sido escrito em forma de documentário. Ela foi mesmo a campo como jornalista que é para escrever o livro. E só mesmo um motivo justificaria a imensa procura pela obra (em dois dias de lançamento, 5 mil livros vendidos, agora na terceira edição): a dor dos próprios feridos. Nessa entrevista que nos concedeu com exclusividade, Marília de Camargo César dá mais detalhes acerca de tudo que diz respeito à sua obra, incluindo sua repercussão. Contados a partir de seu lançamento – junho desse ano – até hoje, já se passaram seis meses. Mas por uma questão mesmo de dar tempo ao tempo, optamos por só agora soltarmos a matéria. Longe de agirmos em nome do chamado “faro jornalístico” para darmos o tão propalado “furo de reportagem”, preferimos aguardar. Até mesmo para termos uma leitura mais madura e sábia acerca do que tínhamos em mãos: além do próprio livro, matérias, entrevistas, releases, notas e dados diversas pertinentes. A pauta emergiu da própria leitura de todo esse material, além da própria obra.


Lagoinha.com: Além dos próprios relatos daqueles que um dia foram membros da igreja que se dividiu, relatos esses feito a você enquanto escrevia, que repercussão sua obra teve para a própria liderança dessa igreja? Como todos reagiram assim que souberam do livro ou mesmo o leram?
Marília de Camargo César: Não tive vontade de saber sobre essa reação, não procurei saber. Preferi deixar o tempo cuidar de assentar as emoções e o Espírito de Deus trabalhar no coração de todos os envolvidos – ovelhas e pastores.
Lagoinha.com: Ainda sobre sua obra, como avalia sua enorme repercussão, pois o mesmo perece ter caído como bomba no colo de muitos?
Marília de Camargo: Acho um pouco exagerada essa avaliação. O blog do livro pode ser acessado (www.feridosemnomededeus.com.br) e ali você verá as mais variadas reações. Algumas críticas de cristãos que acham que contribuo para dividir a igreja de Cristo, mas a grande maioria de outros feridos, identificando-se com os relatos do livro. A repercussão, em geral, é muito favorável.

Lagoinha.com: Uma vez que o tema abordado em sua obra não é tão novo quanto parece - pois autores consagrados como Phillip Yancey, Brennan Maning, Ricardo Godim, além de outros que também são parte do casting da Editora Mundo Cristão que também compartilham do mesmo pensamento que o seu pelas obras já escritas por eles – como justificaria a enorme aceitação e repercussão de seu livro? Seria porque o mesmo fora escrito em forma de um documentário? O que diria?

Marília de Camargo: Creio que o fato de não ter sido escrito por um pastor ou um teólogo, mas por uma jornalista, causou interesse, e também pelo formato de reportagem, que não é comum no mundo editorial evangélico brasileiro.
Lagoinha.com: Com certeza, aqueles que trabalham contigo no jornal Valor Econômico souberam de sua obra. Como reagiram a ela?
Marília de Camargo: Meus amigos me incentivaram e acharam o tema muito interessante. Embora, como em sua maioria não professam a mesma fé que eu, nem têm um interesse tão grande em temas de espiritualidade, compraram o livro, mas nem todos leram (Risos)! Você sabe, jornalistas em geral costumam ser muito céticos e olham para alguém com uma convicção cristã como a minha como uma espécie de objeto voador não-identificado.

Lagoinha.com: Se a simples menção de estar escrevendo acerca do abuso emocional/espiritual cometido nas igrejas por parte da liderança foi suficiente para que muitos a procurassem justamente por saber que dessa vez alguém daria voz e eco às suas queixas e angústias, agora que publicou o livro, como se sente? Pois se para esses você talvez seja uma heroína, para outros que parecem insistir na prática do abuso e/ou negá-lo, você pode ter sido taxada como vilã. O que diz e pensa a respeito?
Marília de Camargo: Fiquei muito surpresa com o grande número de pessoas que se identificaram com os relatos do livro. Como já disse, pessoas que escreveram comentários no blog. A primeira edição do livro, 7 mil cópias, esgotou-se em dois dias. Já estamos na terceira edição. Foi surpreendente até para a editora a repercussão. Mas creio que não existem heróis nem vilões nessa história toda. Existem, sim, líderes imaturos, prepotentes, mal-treinados, em alguns casos, teologicamente equivocados, conduzindo ovelhas ingênuas, sem conhecimento bíblico, carentes, emocionalmente frágeis. Há vítimas dos dois lados da “moeda”.
Lagoinha.com: Como se deu a seleção do que entraria ou não na obra a partir dos casos e relatos que ouviu e acolheu, já que foram muitos e graves casos e nem todos publicados? Que critérios adotou para priorizar um caso em relação a outro? O que tinha em mente?
Marília de Camargo: Usei alguns casos da minha antiga igreja e depois parti em busca de histórias de outras igrejas, porque as de meus amigos se repetiam um pouco. A “propaganda” boca-a-boca sobre minha pesquisa facilitou que alguns feridos me procurassem para contar suas histórias. Infelizmente, não foi nada difícil encontrar os casos para o livro. Selecionei aqueles que considerei mais fortes e deixei alguns de fora, por não estar tão em harmonia com o tema da obra.

Lagoinha.com: Até onde me consta e também o que dá para se perceber por seu livro é que o que publicou talvez não represente sequer a ponta de um imenso iceberg no que diz respeito aos mandos e desmandos de muitas lideranças tidas ou que se dizem cristãs que agem muitas vezes quase que em regime de coronelismo para beneficio próprio. Como foi e tem sido lidar com tudo isso?
Marília de Camargo: Infelizmente, a igreja evangélica que vê seu rebanho crescer exponencialmente no Brasil, vê também os casos de abuso de autoridade e abuso espiritual crescerem a uma velocidade ainda maior. O impacto disso é um trauma na vida de muitas pessoas, que não conseguem diferenciar Deus dos homens e acabam abandonando o primeiro por causa do segundo. É preciso fazer essa distinção e buscar pacientemente uma comunidade idônea, onde o abuso não seja praticado. É preciso estar atento.

Lagoinha.com: Se tivesse que mensurar os resultados e reflexos de sua obra no meio cristão/evangélico, que balanço faria há pouco meses de seu lançamento e o que mais espera tanto da liderança quanto dos membros de qualquer igreja em relação a tudo que escreveu?
Marília de Camargo: Não saberia mensurar o impacto do livro de forma macro, mas de forma micro, na vida de muitas pessoas, este trabalho, fruto de muita oração, tem sido usado para cura e reconciliação. E este sempre foi meu objetivo.

Lagoinha.com: A seu ver, numa situação de abuso emocional/espiritual, seja velado ou aberto, quem mais precisa de ajuda: o abusador ou abusado? O algoz ou a vítima? E como é essa ajuda e como deve ser conduzida rumo à cura e restauração?
Marília de Camargo: Ambos precisam de ajuda. Na maioria dos casos que descrevo, as pessoas só conseguiram se reerguer depois de muita terapia. Num dos casos, em que narro a história de um pastor-abusador, ocorreu a mesma coisa. O pastor, no caso uma pastora, entrou em depressão e precisou se tratar terapeuticamente. Ela, que achava que terapia era coisa do diabo, teve que rever essa posição.

Lagoinha.com: Ainda que tenha apontado como caso extremo de abuso questões envolvendo até mesmo a saúde dos indivíduos, como o de uma vitima de uma enfermidade degenerativa que citou em sua obra, parece haver também como extremo casos envolvendo o aspecto financeiro, dinheiro e posses. Isso é claro em sua obra. Na sua opinião, o caminho para a exploração e o abuso emocional/pastoral envolvendo dinheiro está sempre aberto porque a linha que separa o profissional do ministerial é muito tênue? Ou os abusos só acontecem no campo espiritual?
Marília de Camargo: Este é um exemplo clássico de abuso: pessoas trabalhando de graça, que não são trabalhadores voluntários e temporários, mas fixos, funcionários dos templos e de missões, ou ganhando muito pouco, e ouvindo do pastor, que desfila em roupas de grife e no carro do ano, que se ele quer trabalhar para o Reino precisa aprender a “gerar” as suas ofertas, o seu sustento, espiritualmente. Então, enquanto o obreiro não “gera” ou é acusado de ter fé pequena por estar passando necessidade, a situação de desigualdade e injustiça vai permanecendo dentro dos muros da igreja, um lugar que deveria ser lugar de justiça e equidade.

Lagoinha.com: Dentre os locais por onde tem ministrado, falado, tem sido convidada para falar nas OAB’s segundo nos consta. Como se deu isso e por que tem estado nesses locais? Seria porque tem havido casos de membros processando judicialmente igrejas porque supostamente não tiveram escolhas?
Marília de Camargo: Fui convidada a dar uma palestra no Encontro Estadual de Advogados Evangélicos, durante uma reunião promovida pela comissão de liberdade religiosa da OAB de São Paulo. Isso aconteceu em outubro. Existe um interesse grande dos advogados porque é crescente o número de ações envolvendo igrejas, mas a maioria trata de questões trabalhistas porque, como mencionei, tem muita gente trabalhando de graça, sem registro em carteira, numa situação totalmente irregular e vexatória, e as igrejas estão patrocinando esse tipo de conduta.
Lagoinha.com: Ao que parece a partir de sua obra é que muitos não denunciam o abuso e a exploração emocional/espiritual na igreja por temerem a exposição, o escândalo e as próprias ameaças dos abusadores. O que aconselharia às vítimas e também àqueles que também estão em posição de liderança, mas que discordam de colegas que assim agem?
Marília de Camargo: Primeiro, eu aconselharia a lerem o meu livro (risos). Mas agora, falando sério, é difícil dar conselhos genéricos. Cada caso é um caso, cada um uma história de vida, por cada uma tenho profundo respeito. Sei que vida de pastor não é fácil. As ovelhas começam com uma idolatria terrível sobre a figura do pastor, e isso acaba por corrompê-lo. Os irmãozinhos têm uma enorme parcela de responsabilidade nesses desvios de conduta. O ser humano adora ter seus “postes-ídolos”, adora “gurus” que lhes digam o que fazer, que roupa vestir, com quem namorar ou casar, que emprego aceitar. É a chamada “transferência de responsabilidades”. Depois vão culpar o pastor por ter invadido suas vidas, e não enxergam que foram comodistas, não foram buscar pessoalmente conhecer a vontade de Deus para suas vidas. Não estou querendo justificar os abusos, mas o livro também mostra o outro lado da moeda. Acho que isso é ter uma análise equilibrada.
Lagoinha.com: Agora que lançou Feridos Em Nome de Deus está empenhadíssima na biografia da senadora Marina Silva, que já se lança como pré-candidata à presidência do Brasil. Como é isso?
Marília de Camargo: Estou trabalhando no livro sobre a vida da senadora Marina Silva, uma biografia riquíssima e altamente inspiradora. A previsão de lançamento é no fim do primeiro ou começo do segundo semestre de 2010.
Lagoinha.com: E por falar em Mundo Cristão, o que diria da editora e como tem sido trabalhar com a turma?
Marília de Camargo: O pessoal da editora é o máximo. Sempre me deu um enorme incentivo, investiu em uma autora nova, e creio que os resultados desta parceira têm atendido às expectativas de todos nós.

Lagoinha.com: Uma palavra de alerta (em relação aos abusos) aos que se encontram em cargo de liderança.
Marília de Camargo: Que se lembrem sempre que vivemos na dispensação da graça e não mais da lei, e que o amor encobre uma multidão de transgressões.
Lagoinha.com: Uma palavra de alento e esperança àqueles que foram e/ou ainda são vitimas de abuso nas igrejas ou fora delas?
Marília de Camargo: Só existe um Pastor que nunca falha. Seu nome começa com “jota”.
Lagoinha.com: Uma palavra final de agradecimento.
Marília de Camargo: Agradeço aos amigos da Lagoinha pelo espaço e oro para que esta imensa comunidade atente sempre para os caminhos do Senhor, caminhos de amor, de graça, de perdão e de reconciliação. Que vocês nunca se desviem disso e que Deus não permita que haja vítimas de abuso espiritual dentre os muros desta grande igreja. Muito obrigada.


Por Marcelo Ferreira marcelo.ferreira@lagoinha.com
*Foto: Ana Paula Negri

- Marília de Camargo César é jornalista, com passagens pela TV Globo, principais jornais de economia do Brasil e Il Sole-24 Ore, maior jornal de economia e negócios da Itália. Colabora atualmente com o jornal Valor Econômico. É casada, tem duas filhas e mora em São Paulo. É membro da Igreja Batista de Água Branca, uma comunidade cristã evangélica batista, fundada em 1º de maio de 1937 por um grupo de cristãos oriundos da Igreja Evangélica Batista Paulistana. Está filiada à Convenção Batista Brasileira e à Convenção Batista do Estado de São Paulo.